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Artigos

 

28/03/2005 - Artigos

Identidade cultural e design

“La originalidad es volver al origen.” A citação do arquiteto, designer e artista catalão Antoni Gaudi soa perfeita para iniciar um artigo sobre design e identidade cultural brasileira. A genialidade da frase está em sua simplicidade, a busca da raiz etimológica da palavra para esclarecer seu significado. E ela tem uma pertinência especial quando aplicada ao design - campo no qual, talvez mais do que qualquer outro, originalidade realmente é artigo de primeira necessidade.

Pois, se o design trata de “fazer a diferença” num mercado de produtos cada vez mais iguais do ponto de vista de desempenho e funcionamento – dito em outras palavras, num mundo em que os produtos estão praticamente empatados tecnologicamente -, então a originalidade, a inovação são condições indispensáveis para o seu sucesso. Só elas são capazes de oferecer aos produtos a diferenciação necessária para que se sobressaiam no mercado. E originalidade, nos ensinou o mestre, é voltar à origem.

História de negação
Nem sempre o design brasileiro se preocupou com suas origens. Aliás, nasceu negando-as. O design erudito no Brasil nasce acoplado às idéias da Bauhaus (1919-33), que advogava um “estilo internacional” de design. É o conceito da “boa forma”, ou do “bom design”. O programa de ensino do primeiro curso superior de design no país – a Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), criada no Rio de Janeiro em 1964 - foi calcado no programa da Escola de Ulm, da Alemanha, por sua vez continuadora da Bauhaus. Somos portanto, como disse certa vez o jornalista Zuenir Ventura, ex-professor da Esdi, “netos da Bauhaus e filhos de Ulm”.

Nesse conceito funcionalista de design que esteve na gênese da atividade no Brasil, a forma de um objeto, não importa onde fosse feito, seria a expressão pura da de sua função, de um lado, e das determinantes do processo de produção, de outro – o famoso “a forma segue a função”. Essa filosofia se tornou a força dominante na educação e prática do design.

Tudo o que vem no período da infância, seja de uma pessoa, de uma instituição ou de uma atividade, marca muito, e fundo. Termos tido tanta ligação com Ulm estancou os nossos vínculos com as nossas raízes. Alie-se a isso nosso atávico complexo de inferioridade, desde os tempos de colônia, que nos fez preferir “o que vem de fora”, e chega-se a um design que buscava mais do que referências no exterior, buscava seu próprio norte – fosse no racionalismo suíço ou alemão, fosse mais tarde nos ditames do Salão de Milão.

Mudança de postura
Aos poucos essa postura que reverencia tão somente o que vem de fora e nega suas próprias origens começou a mudar. A abertura do mercado brasileiro para produtos estrangeiros em 1990 sacode os empresários nacionais, acostumados em sua grande maioria à mera cópia. Os programas mais intensos de exportação industrial também evidenciaram a falta de competitividade derivada da prática da cópia. Como concorrer com algo que é tão somente uma versão piorada – e em geral defasada – do que já existe no mercado internacional?

Na base da mudança de postura em relação ao que é nosso e o que vem de fora está uma mudança mais profunda na forma como o brasileiro se vê. O sentimento de vergonha em relação ao próprio país começou a dar lugar ao sentimento de esperança a partir de 1992, com o movimento dos “caras-pintadas”, seguido do impeachment do então presidente Collor.

Este foi um momento chave a partir do qual os institutos de pesquisa passam a constatar um brasileiro orgulhoso de sua nacionalidade, um povo que se considera alegre sim, mas também sério e digno de confiança. O orgulho de ser brasileiro vira mote publicitário de grandes empresas e inicia a contestação da auto-imagem de nosso povo como aquele adepto da “lei de Gerson”, de quem quer “levar vantagem em tudo”.

No campo das políticas governamentais, a consciência quanto à necessidade de investir na inovação calcada na b

Autor: Adélia Borges

Jornalista, curadora e professora de história do design brasileiro. Atualmente dirige o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Este artigo foi originalmente publicado na 1ª edição da revista design.rs, editada pela RGD.



 
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